O processo educativo numa época de sobrecarga/sobrexposição cultural que de forma paradoxal incide sobre um alunado que se forma em meio a crise de pertencimento da pós-modernidade apresenta aos educadores uma série de problemas que tem o potencial tanto de renovarem a nossa área de atuação quanto de cavarem nossas sepulturas, nos enterrarem e celebrarem nosso enterro.
No processo geral do ensino escolar esses problemas já foram discutidos há bastante tempo, sobretudo no alvorecer do século XXI onde o acesso à informação com rapidez deixou marcas indeléveis no processo de ensino-aprendizagem. Esses processos de desconstrução da relação professor-aluno impulsionados pela crise geral do saber/ser do Flower Power, foram levados às portas da última instituição moderna que talvez tivesse alguma relevância técnica por causa de seu caráter 'científico-profissionalizante', a escola.
É claro que a grande maioria dos professores se manifesta contra uma suposta rebelião da classe discente num enfoque 'pessoalizador', mas trata-se de um problema conjuntural profundo, capaz de reorganizar nosso potencial profissional. Entre os frutos da crise das instituição modernas - entre elas a família 'tradicional' - houve a potencialização do protagonismo dos jovens em questões sociais-comportamentais, e por maior que tenha sido a resistência, esse processo de protagonismo juvenil tornou-se paradigmático na maioria das situações de ensino-aprendizagem. Com o advento da web 2.0, interativa por definição, a acentuada troca de papéis viabilizada pela inclusão digital conduz à caduquice a visão bancária de educação, pelo menos no que diz respeito à condição cognitiva dos estudantes e a relevância dos conteúdos aprendidos.
Reconhecendo isso, contudo, não estamos dispensando o professor do processo educacional, pelo contrário, convidando-o a se tornar mais ativo na articulação dos diversos campos de seu conhecimento - formação acadêmica, experiência empírica e conhecimento de tendências contemporâneas de sua área - enfim, convidando-o a participar de um processo continuo e gratuito de formação continuada. Na realidade, o papel do professor se acentua no contexto descrito e ainda mais na formação universitária, uma vez que, dada quantidade de disponibilidade de informação quase patológica o processo de construção de conhecimento é mais dificultoso. A provocação à alteridade que o ensino superior propõe torna-se mais desafiadora porque o processo de aprendizagem obtido por meios 'próprios' e por autonomia do estudante - sobretudo em idade adulta - é absorvido afetivamente de uma maneira intrínseca que impede a problematização dos conteúdos do(s) conhecimento(s) - o seu e o do outro -, não revelando de maneira objetiva o pano de fundo comum no qual se constrói qualquer conhecimento - a cognição humana. Nesse sentido, uma educação canônica/bancária em nível superior, embora profissionalizante, falha no âmago do pressuposto universitário e não proporciona 'a construção do conhecimento pelo domínio dos meios e conhecimento dos processos' mas apenas 'legitimiza' alguns conhecimentos em nível superior por meio de um diploma. É uma educação humanística com dois pontos: a entrada na universidade pela porta da frente e a saída na colação de grau com a 'benção do Reitor'. Não se educa para a liberdade.
Quando assim se dá, em especial nas artes e ciências humanas, mas também em diversas outras áreas - constrói um ambiente de epigonismo em que a educação bancária causa ainda mais dano do que na escola básica; uma vez que a escolha de uma carreira no ensino superior é feita pelo estudante - alguns já profissionalizados mas não 'universalizados' - torna-se muito cômodo para os atores do processo educacional se omitirem à problematização dos processos de legitimação do conhecimento/e de estética e 'fornecerem diplomas' como imperativo do mercado de trabalho.
Sabemos que na área de música e de artes em geral no Brasil especialmente, até pouco tempo atrás fora de uma universidade um diploma de graduação não servia para muita coisa - nós músicos tínhamos que ter carteirinha da OMB pra tocar na noite... entretanto, acredito que a experiência universitária para as artes é riquíssima e indispensável para a formação de artistas-pensadores, propositores de estéticas, relevantes na sociedade e é o maior legado que uma graduação universitária em arte deixa para seus estudantes.
Portanto, é imperativo que, ainda que reconhecendo o protagonismo dos nossos estudantes nas áreas que para eles são confortáveis (o uso produtivo de tecnologia é uma das mais salientes nesse tempo) os professores sejam capazes de articular, desafiar, sondar as dificuldades dos seus estudantes e conduzi-los a uma liberdade criativa que seja o verdadeiro foco do ensino de artes humanístico que é o centro da presença da universidade de artes na sociedade.
Ou seremos suplantados pelos conservatórios no feliz dia em que o Brasil estiver cheio deles.