Exercito de Salvação

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Babel na Eclesia: quando edificamos torres no lugar de igrejas


O texto de Gênesis 11 relata a construção de Babel. Trata de um empreendimento humano feito em oposição à ordem expressa de Deus à Adão (Gn 1:28) e repetida à Noé (Gn 9:1). Enquanto Deus ordenou a esses patriarcas o enchimento da Terra, Babel foi construída para que aquelas pessoas "não fossem espalhadas sobre a face da terra" (Gn 11:4). Um objetivo adicional de Babel era a busca por fama de seus construtores, que a construíam também para ficarem famosos.

Gostaria de fazer uma relação entre a Torre de Babel e o quanto ela se aproxima, tristemente, do objetivo de certas igrejas do nosso tempo, o que vemos expressos na cultura e costumes de parte do rebanho evangélico.

- Enquanto a ordem do Senhor no novo testamento é  "ide por todo mundo" (Mt 16:15) líderes religiosos muitas vezes dizem, "fique"! Como os construtores de Babel, constroem estrutura física e ministerial para que aqueles que se deixam dirigir por eles permaneçam onde estão e não se espalhem pela Terra. O chamado do Senhor é "para fora" - uma das traduções possíveis de ekklesia, termo grego donde deriva a palavra igreja, é "chamados para fora".

- Babel também foi construída para tornar os construtores famosos ("façamo-nos um nome", em Gn 11). Em Gênesis 12, depois de frustrada por Deus a construção de Babel, o Senhor promete, Ele mesmo "engrandecer o nome" de Abrãao, contanto que esse o obedeça, saindo da sua casa e do meio de seus parentes para iniciar um projeto de Deus. Impérios religiosos são construídos para dar nome e fama aos seus construtores, ao seu carisma pessoal, às suas capacidades de liderança, de coaching, de administração financeira. A igreja de Jesus, por outro lado, é feita comunidade em movimento, em expansão.

- Na época de Babel todas pessoas falavam uma só língua. Era uma comunidade feita de iguais, unidos em um só propósito (Gn 11:6). Costumamos pensar em unidade como algo necessariamente bom. No caso não era: pois estavam unidos para algo mal, e sua unidade de propósito aumentava o alcance daquilo que organizavam.
Babel é comunidade de iguais, uma torre de marfim. A igreja se expande não apenas geograficamente, mas culturalmente; alcança todas línguas, todos povos, todas culturas. Apresenta-as ao Cristo, seu criador (Gn 11:9) e revela a cada uma delas o seu propósito, realçando a beleza da sua individualidade frente a luz que brota da Divindade.

Sempre que igrejas imitaram o padrão de Babel (ênfase em estrutura, "mesma língua"/cultura, tendência agregadora que impede expansão), o Senhor veio e, como em Babel ao confundir a língua das pessoas, os espalhou pela face da terra, pra que, finalmente, cumpram o propósito de expansão e transformação além das barreiras pequenas que nos parecem grandes edifícios.

"eles cantavam um cântico novo: “Tu és digno de tomar o livro e de abrir seus selos, porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e naçãoTu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus; e assim reinarão sobre a terra”. 

Apocalipse de João, cap 5:9-10

Resultado de imagem para torre de babel
para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.

Gênesis 11:4

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Graça barata em Gênesis 4

"Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?"
Carta de Paulo aos Romanos 6:1-2

Lendo o capítulo 4 de Gênesis me ocorreu que a história de Caim e de Lameque (seu tataraneto) trata da chamada "graça barata", aquele falso aproveitamento da graça de Deus para pecar, contra o que o ap. Paulo adverte no texto bíblico que encabeça essa postagem. 

Caim, após cometer o primeiro assassinato de que se tem notícia, recebe um sinal misterioso que o protege de ser assassinado por outros. Após Caim ter matado Abel Deus demonstra sua graça - mesmo avisando Caim de que o pecado estava o assediando e que ele deveria resistir (Gn 4:7) - protegendo-lhe a vida.

O tempo passa e depois de algumas gerações surge Lameque, o primeiro polígamo que se tem notícia no texto bíblico. Ele chama suas duas mulheres e se gaba de ter defendido sua honra matando dois homens por motivos fúteis. Eis o texto: 

"E disse Lameque às suas esposas:
Ada e Zilá, ouvi-me;
vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos:
Matei um homem porque ele me feriu;
e um rapaz porque me pisou.
Sete vezes se tomará vingança de Caim,
de Lameque, porém, setenta vezes sete."
Gênesis 4:23-24

Em outras palavras Lameque diz: "se Deus protegeu Caim após o assassinato de Abel, serei protegido infinitamente mais, já que matei dois". 

Ou seja, Lameque, aproveitou-se da graça que Caim recebeu para fazer o que queria. 

Sabemos onde acaba essa história. Em Gênesis 6, Deus declara a total corrupção da espécie humana (exceto Noé e sua família), numa barbaridade que só seria posta em fim com a desolação do Dilúvio.

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Voltando para Paulo: ele exorta os irmãos a não usarem a graça que receberam para continuarem em pecado. Ele diz que não faz sentido viver naquilo que a própria graça aniquilou: o pecado. Ele prevê a possibilidade de que os irmãos, que não precisam mais guardar a Lei de Moisés, deixem de vigiar seu modo de viver a ponto de pecarem prevendo o perdão posterior, ou mesmo nem se importando com isso. Paulo, na 1a carta aos Coríntios (cap.5) acusa alguns irmãos daquela cidade de viver em imoralidade "como nem mesmo entre os gentios" havia. Ou seja, cristãos vivendo de um jeito pior que os que não criam.

Se parece em algo com o que vemos hoje?
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Cristo é a marca de Deus que nos livra da morte, prefigurada em Caim. As acusações de que há gente que supostamente desfruta da graça (cristãos) que vive de um jeito pior dos que não creem não são completamente infundadas. Há também aqueles netos, bisnetos e tataranetos de cristãos que hoje não creem e vivem numa falsa liberdade que tenta simular a liberdade dos que vivem na luz. Cuidemos para não sermos os Lameques da nossa geração.
É importante dizer que o que vem por aí é bem pior que o Dilúvio (2 Pe 3)
 
Vamos garantir nossa permanência na arca da nova aliança e lembrar daquilo que nos é prometido: imortalidade num novo céu e nova terra onde habita a justiça.




Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?
De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

Romanos 6:1,2
Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?
De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

Romanos 6:1,2
Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?
De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

Romanos 6:1,2
Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?
De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

Romanos 6:1,2"

sexta-feira, 9 de março de 2018

Não desprezeis as profecias: literalidade profética, duplo cumprimento, temor no fim dos tempos

Irmãos e amigos,
Depois de algum tempo decidi voltar a escrever aqui. Tenho preferido usar o facebook para divulgar as reflexões mais breves, mas essa aqui será um pouco mais longa e para um público mais 'específico', filtrado pelo clique.
Sempre que um assunto 'interno' dos cristãos se torna público eu penso no meu coração o propósito dessa graça que nos permite ventilar abertamente nossa esperança para um grupo maior de pessoas. Fico triste quando essa oportunidade é desperdiçada por alguns de nós. Eu tento não sair publicando coisas quando tenho muitas dúvidas, por isso demorei a escrever essa postagem e considerei nem escrever nada. Mas ao longo dos últimos três dias coisas vieram à minha mente, fiz algumas pesquisas e me sinto obrigado a compartilhar com vocês.
Independente de qualquer coisa que eu escrever aqui, é bom lembrar que quando falamos do sofrimento de outros seres humanos devemos gastar pelo menos três vezes o tempo que escrevemos orando e afligindo o nosso coração pelos que estão chorando (Rm 12.15). Jesus, falando sobre o escândalo predito responsabiliza os seus perpetradores (Lc 17.1). O fato de algo estar escrito na Bíblia não isenta os responsáveis pelas suas ações e nem deve ser usado como 'justificativa' para suas ações. As crianças sírias não tem responsabilidade pela desgraça a que tem sido submetidas. Seus pais e mães que estão enlutados, também não. Creio nas palavras de Jesus, que no desastre da Torre de Siloé e com o cego de nascença deixou muito claro que pessoas que passam por desastres não são piores que aquelas que não passam por eles.  Creio num Deus que tem posto todas essas coisas na balança e a seu tempo fará cada um responder segundo suas obras (de bombas lançadas a posts irresponsáveis no Facebook).

 Dividi em três partes esse texto. Uma breve defesa da literalidade profética, depois um ponto sobre o duplo cumprimento das profecias e por fim uma parte devocional sobre o temor à Deus no tempo que estamos vivendo.

1) Literalidade profética
Esse é um  ponto que deveria ser desnecessário, especialmente para os conservadores, mas, de maneira surpreendente, há muitos que pregam a inerrância bíblica que tem relativizado a profecia de Isaías 17.  Entre aqueles que relativizam a bíblia a torto e a direito isso não gera surpresa. O texto de Isaías 17 fala de destruição total e permanente de Damasco. Isso, obviamente, não aconteceu até o dia de hoje. Trata-se de uma das cidades mais antigas habitada continuamente no mundo(info). Tiglate-Pileser III, rei da Assíria, matou o rei da Síria e levou cativos da cidade de Damasco, mas não a destruiu, segundo a descrição profética (info, pg.333, 3ºparágrafo). Muitos outros depois deles atacaram Damasco, mas a cidade não foi destruída. Para uma comparação envolvendo cidades e profecia, veja o caso de Jericó. No livro de Josué, 6.26, Josué profere a seguinte maldição sobre Jericó: "Maldito diante do Senhor seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó; sobre seu primogênito a fundará, e sobre o seu filho mais novo lhe porá as portas”. Algumas centenas de anos depois, Hilel, de Belém, decidiu reconstruir a cidade e o texto de 1ªReis 16.34 relata que a maldição de Josué se cumprir nesse homem, que perdeu seus dois filhos nas condições exatas da maldição. Nossa fé depende do cumprimento estrito das profecias. Não reconheceríamos o Messias no Nazareno se não déssemos atenção aos cumprimentos proféticos. Não quero dizer que compreender o cumprimento parcial da profecia de Isaías 17 nos eventos contemporâneos a Isaías seja errado, mas que é insuficiente. Isso leva ao segundo ponto

2) Duplo cumprimento das profecias
Uma das profecias mais importantes para o cristão, que descreve o nascimento virginal de Jesus também no livro de Isaías, capítulo 7 e 9, tem duplo cumprimento:
Isaías 7.10-17 apresenta uma resposta ao rei Acaz (Jerusalém), sobre o medo que esse sentia do Reino de Israel e sua aliança com a Síria. A resposta de Isaias é a seguinte (v.14-16):

Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem.
Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis.

Isaías 7:14-16
Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem.
Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis.

Isaías 7:14-16
"Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem.
Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis"

O primeiro versículo dessa profecia é citado nos evangelhos como profecia messiânica, embora o sinal do seu cumprimento, no versículo 16, seja a derrota dos reis de Israel e da Síria que acontece depois de alguns anos. Como lidar com esse problema? O menino profetizado é o rei Ezequias ou Jesus? A profecia faz referência a dois tempos distintos, localmente se refere a Ezequias, mas é reconhecida pelos apóstolos como uma referência a Jesus (o texto de Isaías 9 aprofunda mais o caráter messiânico da profecia). Alguns chamam esse caráter das profecias se cumprirem em estágios ou tempos diferentes de 'duplo cumprimento'. Um exemplo mais típico é a celebração da páscoa: os cristãos acreditam que a verdadeira libertação ocorreu na morte e ressurreição de Jesus, mas foi anunciada na saída dos hebreus do Egito, sendo aquele momento um marco histórico que apontava para elementos proféticos futuros, mesmo não estando evidente no texto de Moisés.
Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem.
Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis.

Isaías 7:14-16

3) Temor a Deus
Mais do que dizer se a profecia de Isaías 17 se refere ao evento específico da guerra da Síria atual ou não, o que eu gostaria de expor é que a boa parte da oposição dos pontos de vista que aparecem na mídia estão fundamentados mais em disposições de coração (frieza, temor de homens) do que num estudo bíblico sério feito em fé e oração. Aqueles que 'justificam' sua falta de sensibilidade aos sofrimentos da guerra na Síria dizendo que "está escrito"  e se euforizam com a perspectiva da proximidade da volta de Cristo associada a essa leitura profética estão tendo o sentimento errado. As pessoas podem crer nas profecias com o coração sem Deus: Herodes perguntou aos magos pela profecia porque queria matar Jesus. A única preocupação legítima do cristão concernente à volta de Cristo é falar das boas notícias para apressá-la. Não fomos chamados para ser 'rentistas do apocalipse', pessoas que ficam especulando o lucro que vão ter com a desgraça alheia. Por outro lado aqueles que dizem que 'não está escrito' porque tentam defender Deus de parecer mau erram por outros motivos: não haviam crianças, velhos e mulheres em Damasco em 732ac? Guerra, em qualquer momento da história, é a pior desgraça que pode haver. Dizer que a atual guerra na Síria 'não estava escrita' mas que a outra estava não melhora a 'defesa de Deus'. O fato de estar escrito na Bíblia apenas atesta a presciência de Deus e não um desejo de fazer pessoas sofrerem gratuitamente (se quiserem, há casos mais difíceis de explicar como o Anjo da Morte, algumas maldições...). Qual a diferença entre um evento catastrófico que está profetizado ou não, sabendo que por sua presciência Deus sabe todas as coisas? A diferença é que ele não quis revelar, não que se responsabiliza por um e não por outro. É claro que tudo isso é responsabilidade do homem, desde o início, desde Adão.

Por fim, é triste que um temor sadio pelo cumprimento das profecias concernentes ao fim dos tempos possa estar sendo abafado pela insensibilidade. De alguns, por especularem com a desgraça alheia usando a Bíblia como livro de apostas e outros por jogarem mais baldes de água fria no temor de uma sociedade que já há muito tempo desacreditou dos textos da Bíblia. Especialmente os do Velho Testamento.



Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel.
Ele comerá coalhada e mel até a idade em que saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo.
Mas antes que o menino saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo, a terra dos dois reis que você teme ficará deserta.

Isaías 7:14-16
Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel.
Ele comerá coalhada e mel até a idade em que saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo.
Mas antes que o menino saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo, a terra dos dois reis que você teme ficará deserta.

Isaías 7:14-16





 


 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Olhe as circunstâncias, busque as contradições




Amigos,

Hoje publico um texto que há muito tempo queria escrever. As coisas que eu compartilho aqui tem se tornado uma das lentes principais do modo com que vejo as circunstâncias ao meu redor e que me ajudam a tomar decisões relevantes sobre minha vida.
Eu tenho aprendido que uma das principais habilidades que devo desenvolver é a capacidade de perceber as contradições, em mim , mas também ao meu redor.
Entretanto, desenvolver a capacidade de detectar contradições não é o mesmo que se tornar um crítico pedante de tudo e de todas as pessoas, até porque isso mesmo é contraditório. Só posso me tornar um crítico pedante dos outros quando não sou realista a meu próprio respeito. Estaria usando uma balança para julgar o mundo inteiro e outra para julgar a mim mesmo; nada pode ser mais contraditório. Jesus diz que devemos tirar a trave do nosso olho antes de tirar o cisco do olho de outra pessoa, sugerindo que devemos ser mais severos com a nossa própria caminhada do que com a dos outros.

Tendo dito isso, reforço a importância de buscar as contradições. Não é muito difícil encontrá-las, mas é muito mais difícil lidar com elas. É verdade que alguns de nós encontramos dificuldade mesmo em reconhecer as contradições e isso diz muito a respeito da nossa natureza. Mas quero deixar para falar desse aspecto na conclusão. É difícil lidar com as contradições porque é impossível reconhece-las verdadeiramente no 'mundo' antes de reconhecê-las profundamente em 'nós', antes de um exercício sincero de buscar compreender 'a mãe de todas as contradições do universo conhecido', que é a condição humana. Quando falo de condição humana ainda não estou falando do aspecto social ou político aos quais geralmente nos apegamos para fugir da primeira contradição, verdadeiramente humana. Estou falando da condição de 'ser' humano, numa perspectiva da busca da Verdade sobre nós.  As perguntas que podem nos conduzir nessa reflexão são muito simples, mas parecem nos terem sido proibidas nos tempos áureos do materialismo que vivemos. Quem somos? O que buscamos? Qual nosso papel na dinâmica universal? Temos de fato algum papel? Estamos executando satisfatoriamente esse papel? Existimos apenas para provermos as melhores condições possíveis para nossa vida? E quando tivermos essas melhores condições, viveremos para quê? Ao tentar responder essas questões podemos ver melhor a primeira contradição: todas essas perguntas recebem respostas incompletas do nosso intelecto.  Mas, aparentemente o intelecto é o único recurso que temos para elaborar perguntas e também para respondê-las. Se não aceito a contradição, desisto de pensar nessas questões essenciais e tenho uma vida aparentemente menos complicada e sem direção - cancelo a contradição. Ou posso continuar na busca a partir de algum pressuposto (ou de vários). A escolha desse pressuposto acabará revelando como sou hoje e definindo quem eu quero me tornar, mesmo que não tenha todas as respostas no momento. Aceito, então, que a dimensão intelectual não deve ser a única que existe e que posso buscar algo maior para que possa me instruir e lidar com as situações contraditórias no 'mundo' fora de mim. Mesmo que eu  lide ou não com essa contradição de forma adequada, outras contradições cotidianas continuam surgindo diante de mim, tentando me fazer voltar a essa primeira, me implorando para que eu lide com elas de forma inteligente. A soma de contradições que eu consigo perceber com o intelecto, mesmo sem resposta, teria o poder de me conduzir - como numa escultura de baixo relevo - a ver a figura maior e ser capaz de interpretar ao meu redor e a transformá-lo.

As pessoas em geral reconhecem que há razões ocultas por detrás das dinâmicas sociais no mundo material e daí surgem as variadas teorias da conspiração. Mas, geralmente, falhamos em detectar as contradições e escolhemos o culpado que quisermos; normalmente aquele que mais nos assegura que a nossa própria posição é a correta. Aí que está: não é difícil encontrar as contradições mas é difícil lidar com elas por que o principal objetivo delas existirem, revelarem a Verdade sobre nós, é muito doloroso quando temos um conceito falso sobre nós mesmos e insistimos a viver com ele. Por exemplo, pensando na vida política - que parece ser a única que a maioria de nós tem - culpamos exclusivamente alguns partidos políticos sem ver a contradição óbvia de que se os outros partidos são semelhantes aos que criticamos, o problema reside em outro lugar. 

É esse o poder de enfrentar as contradições. Ao reconhecermos as falhas em algum sistema sobre o qual nos estruturamos podemos nos projetar para a busca e construção de um sistema melhor. Já nos tornamos um pouco melhores no processo. Contudo, olhar para as contradições sobre nós mesmos, com coragem, e decidir escolher para nós a 'opção mais realista e satisfatória' existente - e a Realidade só pode ser diferenciada da  Falsidade no encontro das contradições da última com a coerência da primeira - gera em nós um maior sentido de propósito pessoal e comunhão com o propósito maior onde Verdade e Realidade são a única experiência possível.

Deixo dois textos do Mestre sobre a importância de reconhecer as contradições e comento:

"Assim, veio João [o Batista] , que jejua e não bebe vinho, e dizem: ‘Este tem demônio’. Então chega o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: ‘Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!’ Todavia, a sabedoria é comprovada pelas obras que são seus frutos”. (Evangelho de Mateus 11:19)

Ou seja, o problema dos fariseus não era com o "beber vinho e comer carne", mas a resistência à essência da pregação de João e Jesus que eram a mesma: arrependimento.

"Hipócritas! Sabeis muito bem interpretar os sinais da terra e do céu. Como não conseguis discernir os sinais do tempo presente?" (Evangelho de Lucas, 12:56)"

Jesus critica os fariseus que pediam sinais, porque eles eram incapazes de ver  os sinais gigantescos que estavam ali na frente deles. Jesus julga eles moralmente (hipócritas) por serem incapazes de usar sua inteligência para  discernir o óbvio. Eles não estavam dispostos.

No fim das contas, a escolha é nossa e é questão de disposição. Se não quisermos ver as contradições em nós não seremos aptos a discernir o mundo ao nosso redor e nos conformaremos a ele. Se não quisermos ver as contradições ou se basearmos nossas vidas sobre o contraditório teremos muito pouco para acrescentar a qualquer lugar que estivermos. Seremos medidos por nossa disposição ou falta dela.

"Porém, se teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em absoluta escuridão. Por isso, se a luz que está em ti são trevas, quão tremendas são essas trevas!" (Evangelho de Mateus 6:23)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Frango Delay

Pessoal, tô inaugurando uma seção de culinária do blog.
Na verdade, queria apenas registrar o que cozinhei hoje e achei que seria legal já divulgar.

Frango Delay




- 4 Sobrecoxas médias sem pele
- Cominho
- Sal a gosto
- Azeite de oliva

Para o molho

- 1 cebola
- 1/2 tomate grande
- 2 talos de salsinha
- 200 ml de cidra
- 100 ml de leite
 - Uma pitada de sal

Preparo

Frango:
Tempere as sobrecoxas com cominho (o suficiente para colorir as peças) e sal a gosto. Reserve num pote para o tempero se fixar melhor ao frango. Prepare o molho. Depois de preparado o molho, reserve-o e frite as sobrecoxas com azeite de oliva. Tampe a frigideira para garantir o cozimento do frango. Vire as peças para verificar se estão fritas. Quando estiverem douradas, sirva com o molho por cima.

Molho:
Pique a cebola, o tomate e os talos da salsa. Ponha numa panela pequena (pode ser uma leiteira) e mexa até os líquidos da cebola e tomate se misturarem. Amasse a mistura dentro da panela para que saia mais líquido. Antes que comece a ressecar o molho jogue a cidra na panela. Quando a cidra começar a ferver jogue o leite, a pitada de sal e mexa. Desligue e reserve.

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O frango frito com a panela fechada fica com o aspecto de assado, mas com a superfície tostadinha. O sal e o cominho combinam bem com o molho agridoce, assim como a textura crocante do frango com a textura do molho. Fazer o frango depois deixando o molho esfriar completa a harmonia do prato, que é fácil de fazer no dia-a-dia e bem saboroso.

Se alguém experimentar me diga se deu certo por aí!

Abraços




segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A melhor recompensa

Gostamos de ser recompensados. 
 
Quem diz não gostar de ser recompensado pelo que faz obtém a recompensa ainda mais depressa: a sensação de modéstia que recebe ao negar a si mesmo outra recompensa que alguém poderia dar (ainda que às vezes a modéstia seja falsa).

Querendo ou não, recebemos recompensas por todas as nossas ações, boas ou ruins.

A sensação de não necessitar de recompensa não é característica exclusiva de pessoas que se sentem "boas pessoas". Pessoas menos recomendáveis também a compartilham quando torcem para que Deus - ou um conceito mais abstrato de Justiça Divina - não exista, para que não recebam aquilo que elas merecem pelas pilantragens que fizeram. Essas não querem sua "recompensa", e tem bons motivos para não querê-la.

Parece que muitos dos que seguem a Jesus extraem algo do seu ensino que os encoraja a não buscar recompensa. Alguns versículos soltos: "andar a segunda milha, dar a capa, emprestar e não esperar devolução...".
Nada podia estar mais errado. O resultado é que vemos um monte de gente fazendo um monte de coisa 'pra Deus e para o próximo" que realmente não quer fazer. Exércitos de pessoas piedosas de cara amarrada e resmungando. Não tem pior tempero para a piedade que a falsidade. Na falta de opção, muitas vezes a pessoa que recebe esse 'amor' engole toda a colher do xarope, mas lá no fundo sente o amarguinho e torce: "espero que não seja veneno".

Na verdade, o ponto central do ensino de Jesus é que existe, sim, recompensa. Todo mundo vai ser recompensado, vai colher o que plantou. O destino é menos responsável pelas nossas vidas, os Césares são circunstanciais: ninguém pode nos impedir de receber o que é nosso. Como dizemos por ai, o que é nosso tá guardado.

Não somente isso, Jesus apontou para uma recompensa maior e melhor. No Sermão do Monte (Mateus 6,7 e 8) ele ensinou que temos duas opções: podemos escolher entre receber a recompensa das pessoas pelas coisas boas que fazemos ou podemos receber publicamente (NTLH) a recompensa de Deus. Para Jesus "os meios justificam os fins". Algo só é  bom se o meio for o correto. O dinheiro que dou ao necessitado o auxiliará de qualquer forma; mas se dou para ser reconhecido pelas pessoas, já recebi minha recompensa, uns tapinhas nas costas e um sentimento de grandeza inadequado. Se o dou com sinceridade, sem necessidade de publicidade exagerada, minha motivação é verdadeiramente boa e isso já é parte da recompensa. Afinal, ser bom é legal.

Jesus nos disse que há recompensa para todas as boas ações que fazemos. A primeira das recompensas é aprendermos a fazer boas coisas, como o Pai dele e nosso faz. Outra coisa da qual o ensino dele nos livra é a vontade de fazer só o "bem" que os outros aceitam que façamos. Se eu faço coisas boas com a intenção de receber reconhecimento de gente, meu rol de "coisas boas pra fazer" é bastante limitado. Limita-se aos costumes do meu tempo e sabemos que uma das principais funções do costume e 'deixar as coisas como estão' e essa não é bem a vontade do Pai. Cristo nos impulsiona a fazer coisas realmente boas, algumas vezes completamente insanas para o nosso tempo, e garante que recompensas ainda mais loucas nos esperam.

O escritor da carta aos Hebreus disse que sem fé é impossível agradar a Deus, porque aqueles que se aproximam dele precisam acreditar que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam. Esperar recompensa de Deus - muitas vezes em detrimento da recompensa de pessoas - é sinal de fé.

Mas quando o Filho do Homem vier, encontrará fé na terra?


 

sábado, 24 de dezembro de 2016

Natal: a estratégia de Deus deveria ser também a nossa


O Natal é uma data bastante importante. Há diversas maneiras de encarar o Natal e isso não tem a ver necessariamente com religião. Se você for hindu, budista, muçulmano, xintoísta, taoísta e viver numa  democracia provavelmente verá pessoas celebrando o Natal. Há cristãos que não celebram o Natal por não terem provas fáticas de que 25 de dezembro foi o dia do nascimento de Jesus (os cartórios de Belém não foram encontrados em escavações arqueológicas) e por existirem provas históricas que a escolha da data foi estratégia do Catolicismo para popularizar a fé cristã substituindo as festividades de divindades pagãs pelas do nascimento de Jesus. As pessoas que não creem mas gostam de festa e de estar com a família no feriado geralmente aproveitam a data para se encontrar. Alguns trocam presentes. Comerciantes e redes de televisão enchem nossas casas com musiquinhas que tentam capturar o espírito natalino (não entendo como ainda não fizeram um especial de Natal com os Ghostbusters).

"Estamos perdendo dinheiro, Geléia!"


Realmente, é muito difícil conseguir falar de Natal sem, eventualmente, tangenciar Jesus, ao menos como um assunto. Mas não é impossível. Se a Igreja Católica conseguiu ressignificar a festa pagã sem a tecnologia e a 'falta de tradição' que temos hoje, não nos surpreende que haja certo êxito na tentativa de se aproveitar comercialmente do Natal e que haja tão pouco interesse nele como evento histórico e espiritual.

Independente desses melindres todos, se conseguirmos nos desvencilhar desse alimento farto para nossa falta de paciência para o que realmente deveria nos interessar, podemos extrair muitos ensinamentos e até um sentido de vida completamente novo ao pensarmos sobre o Natal. Os detalhes sobre o nascimento de Jesus são relatados apenas no evangelho de Lucas. No evangelho de Mateus a narrativa do nascimento é resumida. Os outros evangelhos (Marcos e João) não se detêm na história de seu nascimento. Entretanto, todos terminam de modo semelhante, apontando a morte e a ressurreição de Cristo. Um cristão geralmente reconhecerá na Páscoa uma festa mais legítima e mais importante: correta cronologicamente e revela o cumprimento do propósito da vida de Cristo.

Entretanto, o Natal - com sua beleza e ternura características - contém os mesmos elementos da Páscoa e ensinamentos igualmente profundos. Sua grandiosidade - anjos, reis magos -  compensa a aparente 'ausência de Deus' que Cristo experimenta durante sua crucificação (o que revela, por outro lado, a grandiosidade do amor de Deus).

O reconhecimento da preexistência de Cristo (o Filho gerado mas não criado) demonstra outro paralelismo entre o Natal e a Páscoa. Para nós que surgimos ao sermos concebidos não poderia haver coisa mais distinta da morte que o nascimento. Entretanto, para Aquele que viveu a eternidade e a imortalidade, receber um corpo mortal era receber a própria morte.  O amor de Deus se manifesta como sacrifício de Si mesmo em prol de sua criação desde a manjedoura até a cruz.

A missão de Cristo - que será anunciada por ele adulto no sermão da montanha - é anunciada pelos anjos que celebram seu nascimento: Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade. A vinda do Senhor é a manifestação da boa vontade de Deus para com a humanidade. Fala do caráter amoroso de Deus e assim O glorifica. As pessoas de boa vontade terão paz em si mesmas, pois a receberão de Deus por meio da mensagem de reconciliação e da capacidade para viver a partir da mensagem que receberam. A oração de Jesus reforça esse desejo: Seja feita tua vontade na Terra... como é no Céu. 

A celebração dos anjos no nascimento de uma criança pobre também revela algo especial a respeito do Reino de Deus. Muita coisa que ignoramos é celebrada com pompa pelos que conhecem a Deus, pois eles sabem seu verdadeiro significado. Também na crucificação foi assim; um lugar de dor e humilhação era, na realidade, o portal espiritual que redefiniu a relação da humanidade com Deus e nos deu lugar permanente com Ele. Aparentemente, apenas um ladrão que partilhava o suplício com Jesus conseguiu enxergar com os olhos espirituais o que estava acontecendo ali.

A estratégia de Deus para servir ao homem se manifesta em cada momento do ministério de Jesus, mas pode ser vista de maneira muito vívida nos marcos do Natal e Páscoa. Sua missão é trazer a paz aos homens através da reconciliação com Deus, manifestando, para isso, o amor sacrificial que apaga a ofensa e oferece perdão. Que diferença isso faz em nossas vidas? A intenção de Deus também era nos mostrar que a vida que Cristo viveu encarnado - amando a todos, andando em justiça e por isso alcançando o amor dos bons e o ódio dos maus, a adoração dos anjos e o reconhecimento de Deus - está disponível a cada um de nós e isso tem consequências imediatas. As consequências imediatas envolvem uma mudança do 'centro gravitacional' da nossa existência, nos livrando da culpa e sentimento de inadequação que acumulamos ao longo da vida e que tendia a nos conduzir para vidas cada vez mais culpáveis e inadequadas. O perdão de Deus nos dá paz essencial e nos permite relações verdadeiramente amorosas com as pessoas, e no fim, isso é o mais importante. Vale a pena se esforçar por isso ainda que o sofrimento algumas vezes nos acompanhe. Foi o caminho que o próprio Deus trilhou. A estratégia de Deus deveria também ser a nossa.

Que nesse Natal reconheçamos que os verdadeiros votos de amor e paz que são feitos tem o carimbo do aniversariante. Que o penhor da realização desses votos foi o seu próprio sangue. Que da mesma forma que Ele habitou em corpos como os nossos nos prometeu habitação em um corpo glorificado igual ao que recebeu. E que a convicção de nossa eternidade e convite à Família de Deus dignifique o dia de nascimento de cada um de nós.

"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós".





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Gabriel