Irmãos e amigos,
Depois de algum tempo decidi voltar a escrever aqui. Tenho preferido usar o facebook para divulgar as reflexões mais breves, mas essa aqui será um pouco mais longa e para um público mais 'específico', filtrado pelo clique.
Sempre que um assunto 'interno' dos cristãos se torna público eu penso no meu coração o propósito dessa graça que nos permite ventilar abertamente nossa esperança para um grupo maior de pessoas. Fico triste quando essa oportunidade é desperdiçada por alguns de nós. Eu tento não sair publicando coisas quando tenho muitas dúvidas, por isso demorei a escrever essa postagem e considerei nem escrever nada. Mas ao longo dos últimos três dias coisas vieram à minha mente, fiz algumas pesquisas e me sinto obrigado a compartilhar com vocês.
Independente de qualquer coisa que eu escrever aqui, é bom lembrar que quando falamos do sofrimento de outros seres humanos devemos gastar pelo menos três vezes o tempo que escrevemos orando e afligindo o nosso coração pelos que estão chorando (Rm 12.15). Jesus, falando sobre o escândalo predito responsabiliza os seus perpetradores (Lc 17.1). O fato de algo estar escrito na Bíblia não isenta os responsáveis pelas suas ações e nem deve ser usado como 'justificativa' para suas ações. As crianças sírias não tem responsabilidade pela desgraça a que tem sido submetidas. Seus pais e mães que estão enlutados, também não. Creio nas palavras de Jesus, que no desastre da Torre de Siloé e com o cego de nascença deixou muito claro que pessoas que passam por desastres não são piores que aquelas que não passam por eles. Creio num Deus que tem posto todas essas coisas na balança e a seu tempo fará cada um responder segundo suas obras (de bombas lançadas a posts irresponsáveis no Facebook).
Dividi em três partes esse texto. Uma breve defesa da literalidade profética, depois um ponto sobre o duplo cumprimento das profecias e por fim uma parte devocional sobre o temor à Deus no tempo que estamos vivendo.
1) Literalidade profética
Esse é um ponto que deveria ser desnecessário, especialmente para os conservadores, mas, de maneira surpreendente, há muitos que pregam a inerrância bíblica que tem relativizado a profecia de Isaías 17. Entre aqueles que relativizam a bíblia a torto e a direito isso não gera surpresa. O texto de Isaías 17 fala de destruição total e permanente de Damasco. Isso, obviamente, não aconteceu até o dia de hoje. Trata-se de uma das cidades mais antigas habitada continuamente no mundo(
info). Tiglate-Pileser III, rei da Assíria, matou o rei da Síria e levou cativos da cidade de Damasco, mas não a destruiu, segundo a descrição profética (
info, pg.333, 3ºparágrafo). Muitos outros depois deles atacaram Damasco, mas a cidade não foi destruída. Para uma comparação envolvendo cidades e profecia, veja o caso de Jericó. No livro de Josué, 6.26, Josué profere a seguinte maldição sobre Jericó:
"Maldito diante do
Senhor seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó; sobre
seu primogênito a fundará, e sobre o seu filho mais novo lhe porá as portas”. Algumas centenas de anos depois, Hilel, de Belém, decidiu reconstruir a cidade e o texto de 1ªReis 16.34 relata que a maldição de Josué se cumprir nesse homem, que perdeu seus dois filhos nas condições exatas da maldição. Nossa fé depende do cumprimento estrito das profecias. Não reconheceríamos o Messias no Nazareno se não déssemos atenção aos cumprimentos proféticos. Não quero dizer que compreender o cumprimento parcial da profecia de Isaías 17 nos eventos contemporâneos a Isaías seja errado, mas que é insuficiente. Isso leva ao segundo ponto
2) Duplo cumprimento das profecias
Uma das profecias mais importantes para o cristão, que descreve o nascimento virginal de Jesus também no livro de Isaías, capítulo 7 e 9, tem duplo cumprimento:
Isaías 7.10-17 apresenta uma resposta ao rei Acaz (Jerusalém), sobre o medo que esse sentia do Reino de Israel e sua aliança com a Síria. A resposta de Isaias é a seguinte (v.14-16):
Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem.
Na
verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a
terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis.
Isaías 7:14-16
Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem.
Na
verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a
terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis.
Isaías 7:14-16
"Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem.
Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis"
O primeiro versículo dessa profecia é citado nos evangelhos como profecia messiânica, embora o sinal do seu cumprimento, no versículo 16, seja a derrota dos reis de Israel e da Síria que acontece depois de alguns anos. Como lidar com esse problema? O menino profetizado é o rei Ezequias ou Jesus? A profecia faz referência a dois tempos distintos, localmente se refere a Ezequias, mas é reconhecida pelos apóstolos como uma referência a Jesus (o texto de Isaías 9 aprofunda mais o caráter messiânico da profecia). Alguns chamam esse caráter das profecias se cumprirem em estágios ou tempos diferentes de 'duplo cumprimento'. Um exemplo mais típico é a celebração da páscoa: os cristãos acreditam que a verdadeira libertação ocorreu na morte e ressurreição de Jesus, mas foi anunciada na saída dos hebreus do Egito, sendo aquele momento um marco histórico que apontava para elementos proféticos futuros, mesmo não estando evidente no texto de Moisés.
Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem.
Na
verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a
terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis.
Isaías 7:14-16
3) Temor a Deus
Mais do que dizer se a profecia de Isaías 17 se refere ao evento específico da guerra da Síria atual ou não, o que eu gostaria de expor é que a boa parte da oposição dos pontos de vista que aparecem na mídia estão fundamentados mais em disposições de coração (frieza, temor de homens) do que num estudo bíblico sério feito em fé e oração. Aqueles que 'justificam' sua falta de sensibilidade aos sofrimentos da guerra na Síria dizendo que "está escrito" e se euforizam com a perspectiva da proximidade da volta de Cristo associada a essa leitura profética estão tendo o sentimento errado. As pessoas podem crer nas profecias com o coração sem Deus: Herodes perguntou aos magos pela profecia porque queria matar Jesus. A única preocupação legítima do cristão concernente à volta de Cristo é falar das boas notícias para apressá-la. Não fomos chamados para ser 'rentistas do apocalipse', pessoas que ficam especulando o lucro que vão ter com a desgraça alheia. Por outro lado aqueles que dizem que 'não está escrito' porque tentam defender Deus de parecer mau erram por outros motivos: não haviam crianças, velhos e mulheres em Damasco em 732ac? Guerra, em qualquer momento da história, é a pior desgraça que pode haver. Dizer que a atual guerra na Síria 'não estava escrita' mas que a outra estava não melhora a 'defesa de Deus'. O fato de estar escrito na Bíblia apenas atesta a presciência de Deus e não um desejo de fazer pessoas sofrerem gratuitamente (se quiserem, há casos mais difíceis de explicar como o Anjo da Morte, algumas maldições...). Qual a diferença entre um evento catastrófico que está profetizado ou não, sabendo que por sua presciência Deus sabe todas as coisas? A diferença é que ele não quis revelar, não que se responsabiliza por um e não por outro. É claro que tudo isso é responsabilidade do homem, desde o início, desde Adão.
Por fim, é triste que um temor sadio pelo cumprimento das profecias concernentes ao fim dos tempos possa estar sendo abafado pela insensibilidade. De alguns, por especularem com a desgraça alheia usando a Bíblia como livro de apostas e outros por jogarem mais baldes de água fria no temor de uma sociedade que já há muito tempo desacreditou dos textos da Bíblia. Especialmente os do Velho Testamento.
Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel.
Ele comerá coalhada e mel até a idade em que saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo.
Mas antes que o menino saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo, a terra dos dois reis que você teme ficará deserta.
Isaías 7:14-16
Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel.
Ele comerá coalhada e mel até a idade em que saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo.
Mas antes que o menino saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo, a terra dos dois reis que você teme ficará deserta.
Isaías 7:14-16