Bom dia, leitores e leitoras.
Copio logo abaixo o discurso que li na formatura da segunda turma da UNILA, como diretor em exercício do ILAACH.
Um abraço.
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Primeiramente, gostaria de parabenizar os formandos e as formandas;
esses que são o motivo de nos congregarmos aqui nessa noite jubilosa.
Parabenizo também seus colegas, familiares, amigos e professores que são
coresponsáveis pelo sucesso dessa caminhada no alvorecer de um novo tempo para
o nosso continente e também um momento que inaugura, na vida de cada indivíduo
que hoje cola grau, uma nova fase onde
tudo aquilo que aprenderam e ensinaram será posto a prova na distância da
Universidade, dos Institutos, dos colegas e professores, e será amadurecido pela
experiência junto aos contextos sobre os quais tanto falamos em sala de aula.
Entretanto, quero usar a palavra conferida a mim nesta noite, para chamar a
atenção de vocês que hoje colam grau, recebem um título, para aquilo que julgo
estar entre as coisas mais importantes, que definirá a relevância da atuação de
vocês nas sociedades: a sensibilidade.
Sensibilidade
é uma coisa que dificilmente se ensina senão pelo exemplo. Nós podemos chamar a
atenção das pessoas para algo - como pretendo fazer nessa fala - mas não
podemos garantir que estamos sensibilizando-as para aquilo. Peço licença, então,
para ser extremamente redundante e prosseguir na minha humilde tentativa de
sensibilizá-los para a sensibilidade.
Etmologicamente,
a palavra vem do latim, sensibilitas, e representa a nossa capacidade de
sentir, de termos nossos sentidos aptos a receber estímulos/informações dos
objetos sensíveis no mundo. O conceito também se aplica à nossa capacidade de
sermos afetados por condições emocionais e subjetivas. A falta de sensibilidade
ao mundo físico pode gerar condições que colocam em risco à idoneidade física
de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos. Entretanto é a falta de
sensibilidades a aspectos subjetivos, humanos, individuais, que causa uma série
de incompreensões, as maiores querelas e dificulta nossa missão de, realizando
nossos sonhos e projetos pessoais, construirmos um mundo melhor, sociedades
mais justas por meio de uma solidária integração dos povos.
A
integração só é possível por meio da sensibilidade dos que se integram. Só é
possível me ajustar ao outro se reconheço seus limites e os meus. Esse outro
pode ser um parente, um colega, um país,
um bloco comercial ou plurinacional. É o "Outro" com O maiúsculo.
Rousseau, em seu premiado "Discurso sobre a Desigualdade entre os
Homens" diz, e eu parafraseio grosseiramente - que a filosofia é a mãe da
desigualdade, da opressão e da violência. Sobretudo por que a capacidade
filosófica nos dá condições de construirmos barreiras e oposições que subvertem
nossa capacidade natural de sentirmos empatia por um outro que é
manifestadamente nada mais é que uma versão diferente de nós mesmos. Longe de
concordar com todo o argumento do Enciclopedista - que também era músico e
musicólogo avant le lettre (antes da
palavra musicólogo ser cunhada), creio que tal reflexão nessa direção poderá
aguçar nossa sensibilidade.
Nesta
noite reconhecemos o benefício de todos anos de instrução que esses graduandos
receberam. Como Instituto, louvamos seus
esforços - em especial numa Universidade em construção - e confiamos na sua
capacidade intelectual e técnica para o exercício de suas carreiras.
Entretanto, nenhum conhecimento, sejam aqueles mais específicos da área de
formação, seja conteúdo das disciplinas de América Latina, aqueles transmitidos
de maneira informal em festas, saraus e reuniões, terá verdadeira serventia social se não forem
munido de uma grande preocupação pela situação humana e, especialmente,
sensibilidade para interpretar os contextos sempre em mutação, numa liquidez
digna de um Zygmut Baumman. Ao saírmos da Universidade, tendemos a procurar a
segurança dos conceitos aprendidos, das opiniões formadas com sofrimento nas
grandes revisões que fazemos da nossa história pregressa; mas é necessário
franqueza e sensibilidade para nos posicionarmos e reposicionarmos em um mundo
onde a opressão surge dos lugares mais inesperados, e por vezes, nos vemos em
papéis que não gostaríamos de estar, do lado dos que oprimem.
A
integração é nosso objetivo. Não qualquer integração, mas uma que promova a paz
e justiça social para todos. Ser sensível também nos condiciona a interpretar
quais caminhos devemos seguir e quais devemos evitar para alcançar essa
integração. Buscamos valores e princípios comuns e reconhecemos as parcerias
para essa integração, nas situações mais inusitadas. Estando sensíveis
percebemos o incomum e apreendemos.
Que
cada um de vocês, nos diferentes cursos que se formam, possam encontrar
realização no pleno exercício da sua profissão, e autonomia, que os levem à
segurança de estarem sempre agindo em prol de serem melhores e tornar nossas
sociedades, e em especial as sociedades Latino-americanos, como grande
vizinhança com traços culturais e problemáticas comuns - mais justas, fraternas
e tolerantes.
