Um dos grandes mistérios da Bíblia, que sempre moveu minha curiosidade é a oração. Não se duvida da sua importância; Jesus orou e com ele todos @s grandes homens e mulheres da escritura. Mas o mistério reside na grande questão: como 'funciona' a oração?
Essa pergunta não se sustenta por muito tempo, se formos honestos. Perguntar como 'funciona' a oração é tão insensato quanto perguntar como funciona um diálogo. Há um que fala e outro que escuta; depois, geralmente, os papéis se invertem. Embora saibamos que uma parte considerável das 'orações' do cidadão urbano moderno não seja assim - são mais discursos proferidos à Divindade do que conversas e súplicas que esperam resposta - entendemos que o verdadeiro mistério não se encontra ali. Não é esse tipo de 'funcionamento' que a grande maioria das pessoas procura conhecer.
Parece-me que o que se quer saber quando se pergunta a maneira de 'funcionar' de uma oração é o seguinte: como ela pode ser uma engrenagem boa o suficiente para que possa chegar a algum fim que eu desejo? Sim, coloca-se a oração como um meio de se alcançar a Deus; se a oração for poderosa Deus irá atender ao meu pedido. Além de as orações serem restritas apenas a pedidos nessa perspectiva, elas se tornam entidades, coisas em si, que podem ser poderosas ou não; perdem totalmente o caráter de diálogo, conversa, compartilhamento.
Uma características principal da conversa é a possibilidade que ela tem de fazer os discursos individuais serem modificados um pelo do outro. Ao conversar com alguém, a sua ideia principal (que era sua, apenas) se desenvolve de acordo com o rumo da conversa que é enriquecido por aquele que te ouve e responde enquanto você fala. Dentro dessa perspectiva, ao vermos a oração como diálogo com Deus, me pergunto se não deveríamos esperar o mesmo dessa conversa: que no falar com Deus, a sua voz construísse sobre nossa demanda particular um terceiro momento, do qual tudo - de bom - pode se esperar; o imiscuir da Palavra viva dele sobre nossas situações cotidianas, nos trazendo alívio, renovação e força para superar. E nas conversas alegres com Ele mais luz para agradecer e ver as coisas do ponto de vista dEle.
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Vejo isso acontecer em quase toda a Bíblia, mas principalmente nos Salmos. Podemos ver, nos Salmos imprecatórios - nos quais Davi está fulo da vida com alguma coisa, ou triste -, os estágios dessa conversa com Deus (vou usar o exemplo do Salmo 94, mas isso acontece com grande frequência). Num primeiro momento, Davi põe para fora a sua dor, mostra seu lado humano, não esconde isso de Deus. Num segundo momento, numa transição suave, ele engrandece os atributos de Deus e se sente acolhido por essa Pessoa que pode conservá-lo (com vida em muitos casos).
Num terceiro momento do Salmo, Davi volta os olhos para a sua situação problemática, mas declara resolutamente saber que Deus está no controle e que vai confiar nele venha o que vier.
Mas em Jesus - é aqui que gostaria de chegar - nos dá dois exemplos claríssimos sobre a natureza da oração. No evangelho de Lucas, capítulo 9, versículos 28-31, Cristo se retira para orar. Nesse contexto vemos a imagem de um Cristo que havia sido reconhecido como filho de Deus pelos seus discípulos (Lc 9:20) e que havia os enviado para uma missão de cura e evangelização bem sucedida, que havia sacudido tanto a sociedade que até os Reis da Judéia ouviram falar nele e se esforçavam para vê-lo (Lc 9:7-9). Nessa oração de Lc 9: 28-31, "seu rosto se transfigurou e suas vestes resplandeceram de brancura". Ele havia sido visitado por Deus, consolado do sofrimento que viria a sofrer em Jerusalém.
Há, contudo, outra oração, no Getsêmani, onde Cristo sofre muito, a ponto de suar sangue (Lc 22:44).
A mesma pessoa, o mesmo Deus a ouvi-lo, e duas orações tão diferentes; numa o rosto de Cristo resplandece, na outra ele sua sangue. Tão visível como Deus na primeira, tão visível como homem na segunda. Mas ambas as orações feitas por aquele que nos ensinou como devem ser feitas.
Não vamos apagar esses detalhes reveladores das escrituras. Nem sejamos como os discípulos, que na ocasião da transfiguração, com sono, se mantiveram acordados com esforço para ver a linda cena de Cristo com Moisés e Elias (Lc 9:32); mas que ao verem que seu mestre sofria, e tendo sido avisados de tudo o que aconteceria, dormiram e deixaram Deus falando sozinho em sua oração (Lc 22:45-46).

4 comentários:
Muito legal o texto Gabriel!! Deus abençoe mais e mais sua vida!!
Bom,apenas bom.O artigo revela alguma coisa mas não toda a coisa.
O mistério sobre oração é complexo e não se esgota.As minhas orações e experiências são frustrantes e desapontdoras.Certa ocasião resolví buscar Deus,e fui para um retiro em Rio das Ostras,Rj,retiro pessoal,eu e Deus, fiquei 40 dias em jejum parcial,religiosamente acordando as 2,horas e 55 minutos por 40 dias,e passando o dia todo em espírito de oração.Ao término dos 40 dias,não ouví Deus falar,voltei a Brasília vazio,frustrado e amargurado,sem fé e até meu filho fez uma crítica dura comigo.Não ví Deus,não ouví Deus e acho que Ele não me ouviu e não me atendeu,nem para dizer alguma coisa.Hoje estou desativado e o meu relacionamento com Ele está congelado.Não tenho orado como dantes,estou desconfiado e até cético com a questão oração.E quando vejo tragédias como aconteceu no Rio,eu pergunto:Onde está Deus ? Salmo 42:3 e 'até quando Senhor'? Salmo 13.
Bem,a oração ainda é um mistério para mim. Para alguns tem resposta,para outros NÃO.
tito from brasília.
Oi tito. Obrigado pelo comentário.
Vou pedir para ser sincero com você sobre o que eu penso, não me leve a mal, ok? Peço que Deus te abençoe.
De fato, não tinha a intenção e esgotar um assunto profundo como esse numa postagem de blog. Escrevi sobre um assunto bem menos complexo na minha dissertação de mestrado, utilizei 309 páginas e não o esgotei...risos.
Percebo que você veio ao post com uma expectativa equivocada, mas mesmo assim acho que tem algo para você aqui. Não existem fórmulas, e é disso que falo no texto. Será que sua oração não funcionou? Você não me disse o que especificamente o que quis ouvir de Deus e porque fez esse sacrifício desnecessário de 40 dias. Se eu fizesse tal coisa provavelmente iria querer ouvir a voz audível de Deus, o que me parece um desatino. Numa comparação tola, posso dizer que a oração do pai nosso não demora mais do que 50 segundos, se é pra seguir alguma forma pré-estabelecida.
A oração é algo cotidiano, é dar mergulhos breves na dimensão espiritual sem tirar os pés do chão, dessa Terra, onde Deus nos pôs pra mudar as coisas. Essas experiências petencostais exageradas são um túmulo para a fé de muitos.
"ah, eu não falo em línguas", "ah, eu orei e fulano não foi curado", e como você disse, perdeu 40 dias de trabalho produtivo, de evangelismo, de ficar com sua família para ficar numa espécie de mosteiro só para sair pior. Foi orar no morro só para pegar resfriado.
Eu não falei nada disso que você fez nesse artigo! Argumentei que isso que você fez é errado! Quando eu disse que taxar oração de forte e poderosa é errado. Você ficou 40 dias 'empoderando' sua oração, jejuando, de forma religiosa, como o advérbio 'religiosamente' indica.
E quando Cristo orou no getsêmani, por acaso Deus lhe respondeu a oração como ele queria? Ele suou sangue pois estava feliz com a resposta de Deus? Não! O texto diz que ele se esforçava cada vez mais na oração.
Sobre dizer 'até quando Senhor', conforme o salmista, é uma liberdade que Deus nos dá! Podemos reclamar, mas crendo que Deus ouve. Isso ainda é oração. E o tempo é dele.
Agora, não culpo a Deus por tragédia nenhuma que ocorra ao mundo, inclusive essa no rio. Não foi Deus quem apertou o gatilho, foi um ser humano. Pessoas morrem, pessoas matam e não tem um departamento no céu contabilizando essas coisas.
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Pra finalizar, raramente escrevo textos conclusivos. Meu propósito é fazer as pessoas pensares, vide o título do blog. Acho que toquei em coisas interessantes que te fizeram pensar.
Um último ponto; temos de parar de nos relacionar com Deus como se tudo dependesse dEle e nada de nós. Eu tenho uma experiência semelhante a sua; depois que passei por ele reconsiderei toda minha experiência cristã, e hoje sou pragmático. Pés no chão, atenção ao próximo; Deus quer muito 'menos' de nós do que alguns parecem querer dar, mas não podem.
Esse foi seu caso, você fez um esforço sobre humano, muçulmano, e não obteve o que quis.
Deus se tornou homem para falar conosco, mas muitos de nós preferimos nos tornarmos anjos para falar com Deus.
Abraços.
(tito) só para explicar, a frase 'sua oração não funcionou' , nas linhas 13-14 é irônica, tá?
Abraços
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