Pois é gente, cheguei, de fato, em São Paulo.
Ontem minha mochila foi furtada da frente da igreja em que eu trabalho. Foi um descuido meu, admito; deixei-a ao lado de alguns adolescentes que ao entrarem na igreja deixaram-na sozinha na calçada. Alguém passando na rua se condoeu da solidão da minha mochila e a levou consigo. Foi um furto, não um roubo. Mas de qualquer forma fica aquela sensação de que os telejornais daqui estão 'corretos' e que fazem um serviço público ao aparentemente exagerar na cobertura de crimes cotidianos. Hoje no café da manhã quase cheguei a simpatizar com um aspirante à Datena da Rede TV; ' é, o rapaz tá certo, vivemos tempos difíceis...'.
Dentro da minha mochila (que era em si mesma o ítem material mais caro do furto) estavam todos meus documentos (com exceção de um RG que tenho que servia pra me tirar de vez da cabeça de que eu sou feio; era bem mais aos doze anos), cartões de banco e crédito,algum pouco dinheiro e meu pendrive menor (o maior estava em casa 'guardado por Deus' sem contar 'vil metal').
Bom, depois que percebi que tinha sido furtado - depois do 'já era' clássico - cancelei todos os cartões, vi que não tinham sido usados, fiz o B.O (tenho impressão que o apelido desse documento na delegacia é Bobo Olhando), voltei para casa um pouco aliviado. Até que lembrei de um pequeno detalhe.
Meus passes do Restaurante Universitário estavam dentro da mochila. Agora, sem quase nenhum dinheiro e com os cartões extraviados lidar com isso não seria fácil. Bom, como a necessidade faz o homem, segui alguns conselhos e fui procurar o 'pai de todos', o Estado, pra me ajudar.
Na Coordenadoria de Assistência Social da USP, contei minha saga para a assistente social. A moça simpática me fez algumas perguntas e depois de eu assinar algumas coisas me deu vale-refeição do RC, mais do que eu tinha. Disse também que se não conseguisse resolver as coisas até mês que vem, eu receberia vales também no mês que vem. Por fim ainda disse que eu poderia me inscrever para morar até o segundo semestre no CRUSP, o conjunto residencial da universidade.
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Já com o coração gratíssimo às pessoas que me ajudaram, fui para o Restaurante. Servi meu prato, sentei, olhei bem pra ele e resolvi orar um Pai Nosso baixinho. A parte do "Pão Nosso de cada dia, dai-nos hoje" soou especial. Percebi essa semelhança na tradução: Pai Nosso, Pão Nosso - a semelhança das palavras revela, talvez por acaso, a essência provedora de Deus, que como o pão, nós dá sustento. Eu, a alguns momentos atrás estava sem dinheiro e esperança de conseguir esse auxílio (pois não sou bolsista da Assistência Social) e agora eu estava comendo, e sem motivos de preocupação quanto a esse assunto.
De repente, sem perceber, senta a duas mesas à minha frente, a assistente social que me ajudou, virada para mim. Ao me ver comendo ali, ela dá um sorriso discreto para mim, e eu respondo com um aceno não tão discreto assim. Fico um pouco constrangido, mas também feliz pela cena.
"Aquele que alimentar a um desses meus pequeninos...". Ah, se ela soubesse!
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Gabriel Moreira

2 comentários:
Poxa, amor... que bom que você conseguiu esse apoio!!! Fico feliz de saber que você esta rasoavelmente bem amparado nessa situação. E de certa forma também fico feliz de saber que você ainda consegue escrever uma crônica bacana no meio de toda essa história!
:***
GABZ, FIQUEI EMOCIONADA QUANDO LI.
MAS É SEMPRE ASSIM...
PESSOAS DO BEM, QUE AJUDAM AOS OUTROS NA HORA DO APERTO NUNCA, MAIS NUNCA MESMO A PORTA SE FECHA ELA SE ESCANCARA MEU CARO....
E PODE ESPERAR QUE MUITA COISA BOA ESTÁ A CAMINHO..
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