Exercito de Salvação

domingo, 19 de abril de 2015

Discurso de Formatura (UNILA 2014)


Bom dia, leitores e leitoras.
Copio logo abaixo o discurso que li na formatura da segunda turma da UNILA, como diretor em exercício do ILAACH.
Um abraço.

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Primeiramente, gostaria de parabenizar os formandos e as formandas; esses que são o motivo de nos congregarmos aqui nessa noite jubilosa. Parabenizo também seus colegas, familiares, amigos e professores que são coresponsáveis pelo sucesso dessa caminhada no alvorecer de um novo tempo para o nosso continente e também um momento que inaugura, na vida de cada indivíduo que hoje cola grau,  uma nova fase onde tudo aquilo que aprenderam e ensinaram será posto a prova na distância da Universidade, dos Institutos, dos colegas e professores, e será amadurecido pela experiência junto aos contextos sobre os quais tanto falamos em sala de aula. Entretanto, quero usar a palavra conferida a mim nesta noite, para chamar a atenção de vocês que hoje colam grau, recebem um título, para aquilo que julgo estar entre as coisas mais importantes, que definirá a relevância da atuação de vocês nas sociedades: a sensibilidade.
                Sensibilidade é uma coisa que dificilmente se ensina senão pelo exemplo. Nós podemos chamar a atenção das pessoas para algo - como pretendo fazer nessa fala - mas não podemos garantir que estamos sensibilizando-as para aquilo. Peço licença, então, para ser extremamente redundante e prosseguir na minha humilde tentativa de sensibilizá-los para a sensibilidade.
                Etmologicamente, a palavra vem do latim, sensibilitas, e representa a nossa capacidade de sentir, de termos nossos sentidos aptos a receber estímulos/informações dos objetos sensíveis no mundo. O conceito também se aplica à nossa capacidade de sermos afetados por condições emocionais e subjetivas. A falta de sensibilidade ao mundo físico pode gerar condições que colocam em risco à idoneidade física de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos. Entretanto é a falta de sensibilidades a aspectos subjetivos, humanos, individuais, que causa uma série de incompreensões, as maiores querelas e dificulta nossa missão de, realizando nossos sonhos e projetos pessoais, construirmos um mundo melhor, sociedades mais justas por meio de uma solidária integração dos povos.
                A integração só é possível por meio da sensibilidade dos que se integram. Só é possível me ajustar ao outro se reconheço seus limites e os meus. Esse outro pode ser um parente, um colega,  um país, um bloco comercial ou plurinacional. É o "Outro" com O maiúsculo. Rousseau, em seu premiado "Discurso sobre a Desigualdade entre os Homens" diz, e eu parafraseio grosseiramente - que a filosofia é a mãe da desigualdade, da opressão e da violência. Sobretudo por que a capacidade filosófica nos dá condições de construirmos barreiras e oposições que subvertem nossa capacidade natural de sentirmos empatia por um outro que é manifestadamente nada mais é que uma versão diferente de nós mesmos. Longe de concordar com todo o argumento do Enciclopedista - que também era músico e musicólogo avant le lettre (antes da palavra musicólogo ser cunhada), creio que tal reflexão nessa direção poderá aguçar nossa sensibilidade.
                Nesta noite reconhecemos o benefício de todos anos de instrução que esses graduandos receberam. Como Instituto,  louvamos seus esforços - em especial numa Universidade em construção - e confiamos na sua capacidade intelectual e técnica para o exercício de suas carreiras. Entretanto, nenhum conhecimento, sejam aqueles mais específicos da área de formação, seja conteúdo das disciplinas de América Latina, aqueles transmitidos de maneira informal em festas, saraus e reuniões,  terá verdadeira serventia social se não forem munido de uma grande preocupação pela situação humana e, especialmente, sensibilidade para interpretar os contextos sempre em mutação, numa liquidez digna de um Zygmut Baumman. Ao saírmos da Universidade, tendemos a procurar a segurança dos conceitos aprendidos, das opiniões formadas com sofrimento nas grandes revisões que fazemos da nossa história pregressa; mas é necessário franqueza e sensibilidade para nos posicionarmos e reposicionarmos em um mundo onde a opressão surge dos lugares mais inesperados, e por vezes, nos vemos em papéis que não gostaríamos de estar, do lado dos que oprimem.
                A integração é nosso objetivo. Não qualquer integração, mas uma que promova a paz e justiça social para todos. Ser sensível também nos condiciona a interpretar quais caminhos devemos seguir e quais devemos evitar para alcançar essa integração. Buscamos valores e princípios comuns e reconhecemos as parcerias para essa integração, nas situações mais inusitadas. Estando sensíveis percebemos o incomum e apreendemos.
                Que cada um de vocês, nos diferentes cursos que se formam, possam encontrar realização no pleno exercício da sua profissão, e autonomia, que os levem à segurança de estarem sempre agindo em prol de serem melhores e tornar nossas sociedades, e em especial as sociedades Latino-americanos, como grande vizinhança com traços culturais e problemáticas comuns - mais justas, fraternas e tolerantes.     


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Gabriel