"A universidade só dará luz ao povo no dia em que pegar fogo".
Com essa frase anônima que li na parede da USP começo uma crítica muito pessoal à instituição universitária, principalmente nas ditas ciências humanas. Essa crítica é fruto da minha história de envolvimento enquanto estudante de graduação, mestrado e doutorado.
A universidade me parece, muitas vezes, como um gigante sem cabeça. Algo enorme, com muito potencial, mas com função social limitadíssima. Não apenas pela má administração da instituição, mas pela sua própria epistemologia e ontologia capengas.
A universidade, assim como a escola, igreja, estado, família e todas as instituições que nos são legadas da modernidade sofre uma crise existencial, de questionamento de seus valores e propostas.
O motivo é muito simples: elas todas tem em sua gênese o pensamento de que há um bem comum social que deve ser promulgado (ainda que esse esteja se construindo sempre em tensões nas Universidades, e, por oposição, na concordância normativa nas Igrejas); e em sua oposição há idéias subversivas e antiquadas que devem ser evitadas pelos danos que podem vir a causar à malha social e aos indivíduos. Enquanto a Universidade pesquisa e avança nas descobertas científicas, a Igreja (ou qualquer instituição religiosa) reflete sobre o uso dessas conquistas no que diz respeito a direcionalidade moral dessas mudanças propostas pelas universidades e avalia possíveis resultados de sua aplicação na vida das pessoas; seria o que chamamos de coloquialmente de perspectiva ética. É claro que em diversos períodos da história tanto a Universidade quanto a Igreja desempenharam mal os seus papéis.
Todo esse pensamento de direcionalidade e de finalidade que nutria essas instituições desapareceu. A escola não ensina, a universidade finge que pesquisa - e mais, às vezes finge que divulga o que pesquisa - e também finge que ensina seus alunos a pensarem por si próprios. Mas eu digo que isso não é culpa de professores ou alunos, em última instância, mas do lugar perdido dessas instituições que dificilmente se encontrará do jeito que a coisa está indo.
Primeiro, o que é ensinar na pós-modernidade? Sempre se teve em conta que o papel do professor de ensino fundamental é ensinar ao seus alunos coisas que eles ainda não sabem, para que se tornem aptos para o convívio em sociedade e desenvolvidos plenamente em suas capacidades cognoscitivas. Entretanto, o ato de escolher essa ou aquela matéria é uma escolha de valoração. Ou seja, escolhe-se ensinar aquilo que importa e não qualquer coisa. E dentro do que se ensina algumas coisas são mais importantes que outras: se prova, por exemplo, que em certa sociedade matemática é mais importante que artes pelo número de aulas de cada disciplina na grade curricular. Todas essas opções valorativas, do cerne da concepção da Escola, são desaconselhadas - ao menos na teoria - pelo pensamento pós-moderno. O próprio papel do professor é questionado: o conceito de 'mediação' (que em si é muito apropriado) pode se tornar uma fuga covarde para o educador que não sabe o que ensinar, nem como fazê-lo, em parte por ter saído da Universidade sem nenhuma formação diretiva e em parte pela sua falta de sinceridade. Educa-se para quê afinal de contas?
Chegamos então ao problema universitário. A própria Universidade, inicialmente pensada como um celeiro de cérebros e problemas a serem resolvidos, atualmente não sabe o porquê de sua existência. A única coisa que é muita clara para o jovem universitário é que tudo que ouviu a respeito de qualquer coisa antes de entrar na universidade é errada. Após essa grande limpeza cognitiva e emocional, o que os professores fazem, com o que preenchem o vazio de significado e consciência que ajudaram a promover? Com nada! Com um pouco de humor, eu poderia dizer que os 'inocentes' à esse processo perdem seu próprio cérebro e no seu lugar ganham um monte de conceitos abstratos, com pouca ou nenhuma conexão com sua experiência cotidiana. Foram criados ETs que também não sabem direito para que servem.
É claro que isso influencia a produção de conhecimento. A academia - especialmente em ciências humanas - quando não sabe o que fazer com respeito a algum postulado, apela para um termo guarda-chuva, 'relativização', e se alinha com alguma militância que diz respeito a essa causa. Ainda que as pesquisas demonstrem que a postura tomada pelos acadêmicos não é indiscutível, de nada adianta. Qualquer indício que aponte a uma verdade que diz respeito ao gênero humano como um todo será sempre questionada, por um exemplo que aponta aquela pessoa fictícia, lá na Indochina, que serve de exemplo contrário a qualquer afirmação que você faça que se aplique à todas as pessoas que você realmente conhece. Essa atitude petulante aponta um paradigma aceito: não existe nada que se aplique à espécie como um todo, que aponte uma conduta ou um fim. Existe um pressuposto antes de que as pesquisas se iniciem, e é claro que seus resultados não podem distoar dele. Evidências? 'Não, o corpo humano, a realidade física das pessoas, não é algo relevante a ser observado. Vamos nos retirar com elucubrações para a aura ou da 'alma', ou da 'aprendizagem', do 'indivíduo' ou do 'sujeito'. Qualquer opinião em contrário é tida como heresia.
A universidade, aliada com a lógica do capital, tem fomentado a desordem social que vivemos. Ainda que os seguidores de diferentes religiões co-habitassem e convivessem em harmonia, penso que eles teriam êxito se se respeitassem. Acredito, então, que o problema não é a questão multicultural. Mas a relativização - ou melhor, seu exercício deturpado - é utilizada tanto pela grande mídia quanto pela universidade, tem impedido pais ou pessoas preocupadas com a saúde emocional e física de crianças de protestarem contra a lógica do vale tudo que a grande mídia explora e contra a qual ela não tem um rival a sua altura (a universidade, enquanto instituição governamental poderia fazer esse papel, mas o governo não demonstra muito interesse por aquilo que não gira capital também).
Cenas de sexo em horário nobre? Quem tem 'moral' hoje em dia para questionar? O fato de que cada vez mais pessoas estão tendo suas relações sexuais antes dos 15 anos? Da banalização do amor? Do uso de álcool estar começando, também, mais cedo? Não se percebe isso como sintoma da falta de direcionalidade da proposta de formação de novos seres humanos?
Não estou propondo uma regressão à modernidade, aos absolutos, mas sim que sejamos críticos do pseudoavanço que tem demonstrado um tanto mais malefícios do que benefícios à formação de pessoas. Isso é responsabilidade social. De certa forma, a destruição do planeta é uma metáfora física desse processo humano; em nome de 'avanços' sem controle estamos destruindo a casa de diversas espécies por centenas de milhares de anos.
Um dia li a seguinte frase, e lembro que era de ótimo autor que me esqueço agora "O Senso Comum nunca está muito certo nem muito errado". E em tempos de uma universidade sem proposta isso me parece ainda mais verdadeiro.
p.s: Felizmente tive ótimos professores que não cabem nessas minhas considerações. E foi mesmo através deles que pude ver essa triste realidade. Embora sem perder a esperança.
Bem vindo ao "Pensar não é pecado": o juntar de uma miscelânea de coisas que me interessam pessoalmente; textos sobre arte, música, poesia, fé na humanidade e teologia cristã, entre outros temas. A proposta desse blog é ser um espaço para livre exposição de ideias, de produção artística e de compartilhamento, além de manter contato com amigos próximos e mais distantes. Um abraço a todos, e sejam bem vindos!
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Seja bem-vindo(a)!
Sinta-se livre pra desenvolver os assuntos aqui. Os próximos textos vão levar em consideração os comentários lidos!
Vamos tentar rir juntos, também.
Sempre é possível.
Gabriel
Sinta-se livre pra desenvolver os assuntos aqui. Os próximos textos vão levar em consideração os comentários lidos!
Vamos tentar rir juntos, também.
Sempre é possível.
Gabriel

Nenhum comentário:
Postar um comentário