Exercito de Salvação

sábado, 27 de junho de 2015

Porque não colori meu perfil: Problemas éticos do uso indiscriminado da relativização como regulador moral e aspectos políticos

Gosto do romance "Admirável Mundo Novo" do Aldous Huxley.

No romance é apresentado um Estado altamente capilarizado, totalitário e fascista dominado pela tecnocracia e tecnologia. Por incrível que possa parecer para o leitor de hoje em dia, o livro escrito em 1932 (época de ascensão dos fascismos na Europa), narra uma tática de dominação cultural que não envolvia conceitos ditos conservadores como Igreja, Família e Nação - utilizados pelos fascistas dos anos 30. Na verdade, em "admirável mundo novo"  tanto família como religião foram transformados em tabu pelo Estado: em seu lugar foram instituídos, sistematicamente, o gozo livre dos prazeres sexuais e a adoração secular à Ford e Freud (Com o jargão de saudação 'Our Freud/Ford' substituindo 'Our Lord/God'). Quando algum dos personagens do livro se sente 'incomodado' com o amor, sentimentos familiares ou algo vinculado a algum dos 'tabus', consumia uma droga fornecida pela estado que o fazia retornar à situação natural (provavelmente uma referência ao LSD na época de sua descoberta).

Nós, ocidentais, vivemos em uma sociedade pós-industrial, em certa medida semelhante à da distopia. Praticamente todos os direitos civis que conquistamos em nossa história  são 'reparadores' dos danos sociais causados pela escravidão e pela migração às grandes cidades desde a segunda revolução industrial (falo dos ocidentais). A transformação da cultura em 'segunda natureza' como substituição ao vazio deixado pela cultura popular e regional de onde boa parte da população urbana foi retirada nos últimos 100 anos é feita por meio da busca da construção de lugares comuns, convergências, assentimentos mentais, induzidos - indubitavelmente - pelo interesse capital (Inglaterra,"USA", corporações e governos) os "mesmos" que, há duzentos anos atrás, traficavam escravos negros livremente pelo oceano atlântico e que hoje desapropriam agricultores e são lenientes com as condições análogas à escravidão presente nas fábricas aqui, na China e em todo mundo.

É importante observarmos que esses eventos em especial, a escravidão e o fetiche tecnológico, produzem, respectivamente, a destruição do valor intrínseco humano e da natureza. Entretanto é mais curioso ainda percebermos que foi justamente 'a relativização' de valores de toda uma sociedade que criou o espaço para o surgimento dessas teses. A famosa tese popular entre 'cristãos escravagistas' de que africanos não tinham alma é fruto de relativização - e do interesse do capital.

A destruição/desrespeito aos 'modos de viver' não aconteceu/acontece somente entre os indígenas catequizados de hoje ou ontem - seja catequese religiosa ou econômica, ou ambas. Os modos de viver de comunidades tradicionais - para as quais termos como Família e Sexo ainda fazem sentido - também são sistematicamente atacados ideologicamente e não são completamente obliterados porque os governos dos países democráticos fazem esforços para conseguir agradar a gregos e troianos.

É nessa hora que devemos nos posicionar contrários à qualquer tipo de violência e favoráveis à instrução geral da população. Teses infames como a "redução da maioridade penal" também interessam ao capital e é mais difícil traçar um perfil daqueles que são contrários ou à favor dessa tese. Mas não se percebe nenhum barulho das corporações a esse respeito (a mídia que não pode se calar pela natureza do seu ofício, se manifesta massivamente favorável)...

E voltamos ao perigo da relativização como regulador moral da sociedade. Existe um documento chamado ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente. Podemos dizer que alguns setores políticos estão buscando 'relativizar' a compreensão que o Estatuto traz sobre a "Criança" e o "Adolescente". Existe um problema objetivo: crianças e adolescentes estão cometendo crimes contra à vida. Mas existe duas forças competindo: um certo "conservadorismo" que defende que o ECA deve ser respeitado e quem tem que ceder é o Capital (e seus representantes no Estado) e viabilizar a educação e concretização da 'infância' e outros, "progressistas", que julgam que a lei 'não serve para a realidade atual', propõe a relativização jurídica das leis sobre a penalização de menores.

É claro que esse tipo de discussão desgasta o Estado.

Mas voltemos para o romance de que falei no início para uma síntese. Não há dúvida que o discurso da liberdade sexual é o maior receptor da Líbido Estrutural do "Ocidente Esclarecido" nos últimos 50 anos (parece que dos movimentos 68 restou apenas esse assunto e todo mundo parece engajado). Huxley em 1932 já havia percebido o potencial agregador do discurso de liberdade sexual - afinal quem é que não gostaria que certas coisas que nos parecem atraentes realmente fossem moralmente aceitas e assim poder equalizar 'ego' e 'id' com o 'superego' de maneira cabal? Quando o Estado se vincula à questão sexual - seja na proibição de certas atividades sexuais quanto na afirmação de outras - participa de uma discussão de foro íntimo para a qual nem sempre é convidado e nela exerce poder. Gosto de pensar no que Foucault afirma com relação à natureza do poder: ele nem sempre é proibitivo ou repressivo, mas também positivo e 'normativo' - fomentando condutas e moldando comportamentos.

Nesse sentido, o estado deve permitir(ou melhor, não impedir) que indivíduos possam gozar de uma situação legal de 'casados' e constituir uma 'família'. Acho que fazem sua obrigação.

Entretanto, o pensamento que demonstra relação direta entre as pessoas comuns (não falo do Malafaia) que não compartilharam dos valores de outras e ocorrência de violência moral ou física inviabiliza nossos melhores desejos de integração, porque, como já disse na rede social, a única possibilidade de integração é o respeito ao diferente - e isso em mão dupla. Associar a diferença à violência é criar um celeuma para nunca resolvido - ao gosto dos políticos democratas - ou à ser resolvido com incêndios em kulaks e campos de concentração.

Sendo mais coloquial, para terminar: quando alguém me diz que toda forma de 'amor vale a pena' e que isso, como 'amo tudo muito isso' deve pautar uma ou duas das minhas ações, penso: de que amor estamos falando?

O discurso da relativização sem problematização ética ou filosófica favorece o emburrecimento geral e a diminuição do poder de ação das pessoas simples, que buscam falar por si mesmas, como eu e você. Eu não posso concordar com isso.  E é por isso que não colori meu perfil.

Não colori meu perfil porque penso que os sentimentos facciosos são aqueles que geram todo tipo de violência, mais do que a admissão da diferença. São as inclinações humanas que nos fazem sentir 'bons' e outros 'maus'. Compartilhamos isso com o ISIS, que, inclusive, fez muitas vítimas ontem... um grupo radical gerado pelas incoerência do potentado que ontem aprovou o casamento gay.

Também não o colori por prezar por relacionamentos. E por achar, que assim como na redução da maioridade penal, essa importante discussão está abarcando os temas errados e se direcionando na formação de mais facções do que para a unidade.

O verdadeiro amor, segundo Cristo, é aquele que é direcionado ao que é diferente. E isso se faz assumindo a diferença e convivendo com ela. "Que valor tem amar quem é igual à você? Até as piores pessoas da sociedade fazem isso".

Esse tipo de amor verdadeiro é o que vale a pena. E eu me exercito nesse amor ao conviver com pessoas completamente diferentes de mim, todos os dias, e buscar servi-las e ajudá-las em tudo que eu posso.  Gente contra o casamento gay, gente a favor; ateus, evangélicos intolerantes; a favor da maioridade penal, contra a maioridade penal. o caminho do meio, o caminho do amor. Nesse tempo que parece nos cobrar posição o tempo inteiro e pouca análise introspectiva eu quero desenvolver o verdadeiro amor.
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"Para Foucault, é uma concepção simplesmente jurídica que subjaz à análise do poder pela repressão, ou seja, estar-se-ia identificando o poder basicamente a uma lei que é sempre proibidora, preocupada continuamente em dizer não. Ele classifica essa noção puramente negativa do poder como “estreita” e “esquelética”, argumentando que, se assim fosse, se o poder não fizesse outra coisa a não ser dizer não, ele não seria obedecido. Ou seja, para esse filósofo, o que faz com que o poder seja aceito é justamente o fato de que ele não é apenas uma intolerável carga da qual não se possa escapar, mas, na verdade, ele atravessa toda a sociedade, produzindo coisas, induzindo ao prazer, formando saber, produzindo discursos."

A ANALÍTICA DO PODER EM MICHEL FOUCAULT. Maria de Lourdes Faria dos Santos Paniago.

Disponível em http://www.congressohistoriajatai.org/anais2008/doc%20(55).pdf


















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Gabriel