O texto de Gênesis 11 relata a construção de Babel. Trata de um empreendimento humano feito em oposição à ordem expressa de Deus à Adão (Gn 1:28) e repetida à Noé (Gn 9:1). Enquanto Deus ordenou a esses patriarcas o enchimento da Terra, Babel foi construída para que aquelas pessoas "não fossem espalhadas sobre a face da terra" (Gn 11:4). Um objetivo adicional de Babel era a busca por fama de seus construtores, que a construíam também para ficarem famosos.
Gostaria de fazer uma relação entre a Torre de Babel e o quanto ela se aproxima, tristemente, do objetivo de certas igrejas do nosso tempo, o que vemos expressos na cultura e costumes de parte do rebanho evangélico.
- Enquanto a ordem do Senhor no novo testamento é "ide por todo mundo" (Mt 16:15) líderes religiosos muitas vezes dizem, "fique"! Como os construtores de Babel, constroem estrutura física e ministerial para que aqueles que se deixam dirigir por eles permaneçam onde estão e não se espalhem pela Terra. O chamado do Senhor é "para fora" - uma das traduções possíveis de ekklesia, termo grego donde deriva a palavra igreja, é "chamados para fora".
- Babel também foi construída para tornar os construtores famosos ("façamo-nos um nome", em Gn 11). Em Gênesis 12, depois de frustrada por Deus a construção de Babel, o Senhor promete, Ele mesmo "engrandecer o nome" de Abrãao, contanto que esse o obedeça, saindo da sua casa e do meio de seus parentes para iniciar um projeto de Deus. Impérios religiosos são construídos para dar nome e fama aos seus construtores, ao seu carisma pessoal, às suas capacidades de liderança, de coaching, de administração financeira. A igreja de Jesus, por outro lado, é feita comunidade em movimento, em expansão.
- Na época de Babel todas pessoas falavam uma só língua. Era uma comunidade feita de iguais, unidos em um só propósito (Gn 11:6). Costumamos pensar em unidade como algo necessariamente bom. No caso não era: pois estavam unidos para algo mal, e sua unidade de propósito aumentava o alcance daquilo que organizavam.
Babel é comunidade de iguais, uma torre de marfim. A igreja se expande não apenas geograficamente, mas culturalmente; alcança todas línguas, todos povos, todas culturas. Apresenta-as ao Cristo, seu criador (Gn 11:9) e revela a cada uma delas o seu propósito, realçando a beleza da sua individualidade frente a luz que brota da Divindade.
Sempre que igrejas imitaram o padrão de Babel (ênfase em estrutura, "mesma língua"/cultura, tendência agregadora que impede expansão), o Senhor veio e, como em Babel ao confundir a língua das pessoas, os espalhou pela face da terra, pra que, finalmente, cumpram o propósito de expansão e transformação além das barreiras pequenas que nos parecem grandes edifícios.
"eles cantavam um cântico novo: “Tu és digno de tomar o livro e de abrir seus selos, porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação. Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus; e assim reinarão sobre a terra”.
Apocalipse de João, cap 5:9-10

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